sábado, 18 de julho de 2015

Vamos falar de perdão?

 

Não, não podemos falar sobre o perdão.

O amor também acontece no coração e muito se fala sobre ele.

E o perdão? Falo, logo, tudo perdoado.

Não, não podemos falar sobre o perdão.

O amor nasce e a palavra o alimenta (ou o mata de fome). Pode começar tufão ou ser apenas um sopro de amor. É falar dele que a imagem vem fresca. Ganha jardim. Voam os pássaros e as borboletas. Alcança-se um tronco torcido. Uma nuvem no céu. E pronto: o amor se inscreve. Até quando não há mais amor, se você fala dele o mantém vivo. É uma coisa sublime. Pode ser inventada.

O perdão é assim. Você recebe um aviso no peito: perdoa. Feito. Tranque o perdão e siga em frente. Sem tocar no assunto. Só que tem assunto com vontade própria. Vai você falar de perdão por isso, por aquilo e descobre: a porta está encostada. Dos infernos, o que você sente não é nem primo distante do perdão. Você quer morrer. Matar. Não adianta falar, você está longe. Longe de perdoar.

Dia desses, alguém disse: você perdoa quando não tem mais necessidade de falar.

Então, é isso? O perdão é calado?
Não chega anunciando feito amor. Nem quebrando pratos feito ódio.
O dia em que o perdão chega a gente nem sente. Senta e toma chá.

O perdão, suspeito, deve vestir manto branco. Envolve o coração e o faz parar de sangrar.

Perdão é paz?

Não, não podemos falar.



Foto 1: Sônia Ribeiro
Foto 2: Catarina Ribeiro
 Manto Mana, exposição "Maria de todos nós".

terça-feira, 29 de julho de 2014

Parece que foi ontem



Atravessei o portão esbaforido. Queria chegar logo na banca pra comprar mais figurinhas da Copa. Faltava muito pouco pra completar o meu 1º álbum! Todo tostão que recebia logo se transformava na figura de algum craque.

No meio do caminho, vi na loja de doces da Dona Ângela uma coisa esquisita. Um treco. Parecia pequeno, mas podia ser grande. Parecia ser de papel, mas podia ser de plástico. Parecia com algo que nunca tinha visto. Um treco qualquer.

Sem perceber, lá estava eu: diante da vitrine da Dona Ângela pra tentar adivinhar que treco era aquele. Conversava com o tico e o teco em busca de alguma resposta.

Será que entro e peço pra ver? Mas a loja está tão cheia... E Dona Ângela não é muito de papo... E se perco a hora da escola? E se não consigo depois ir à banca? O Carlos vai estar cheio de figurinhas pra trocar no recreio...

Como quem cutuca pensamento, o seu Miguel se meteu no meio da minha dúvida:

- Pedro, meu filho, entre logo! Daqui a pouco, não passa o seu ônibus pra escola? Olha, que senão você se atrasa de novo.

O seu Miguel era nosso vizinho desde sempre. Vivia sozinho. Acho que não tinha filhos. Só uma irmã que, de vez em quando, aparecia pra visitá-lo. Toda vez que o ônibus buzinava pra me buscar em casa, ele sempre ia até a janela. Parecia me dizer adeus com os olhos, mas podia ser só uma esquisita mania.

Levei um susto tão grande que, de repente, já estava dentro da loja da Dona Ângela, ao lado do seu Miguel e diante daquele treco, que estava lá em cima, na última prateleira. Sozinho. Não havia mais nada perto dele. Só dava pra ver a lateral. Parecia meio velho, mas podia ser novo. Parecia não ser nada, mas podia ser alguma coisa. Que treco curioso!

- Então, Pedro? Quer um saco de balas de caramelo?

- Não, seu Miguel, obrigado...

A loja estava tão cheia que Dona Ângela nem notou nossa presença.

- Pedro, que tanto você olha?

- Pr'aquele treco lá em cima!

- O quê, meu filho? Não vejo nada... Que treco é esse?

Enquanto ele procurava o ponto da minha vista, me enchi de coragem, passei por umas dez pessoas, cheguei até a Dona Ângela, apontei pro treco e de uma vez só perguntei:

- Dona Ângela, que treco é aquele que parece pequeno, mas pode ser grande; que parece de papel, mas pode ser de plástico; que parece velho, mas pode ser novo; que parece não ser nada, mas pode ser alguma coisa?!

Falei tão alto que todos pararam pra me escutar. Foi igual cena de cinema. Sabe quando as pessoas e as coisas congelam e só você continua em movimento? Pois foi assim.

Dona Ângela, respondeu feito doce que desmancha:

- Pedro, isso não é um treco... Parece com este álbum que você carrega debaixo do braço, mas pode ser diferente.

Pegou um banquinho e alcançou a minha curiosidade:

- Aqui está a história de outro colecionador. Meu Pai.

De dentro do saco, ela retirou um a um. Mostrou todos os álbuns de figurinhas de Copa do Mundo desde 1958, quando o Brasil foi campeão pela primeira vez, na Suécia. Parecia uma aula de história, mas podia ser só a memória de uma senhora.

Virei pra trás e vi os olhos do seu Miguel igual a campo de futebol em dia de chuva. Cheio de poças.


- Parece que foi ontem...
 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A cor do dia


 
O dia amanheceu branco. Cor de nada.
 
Rosa caminhou transparente até esbarrar com o cinza do dia.
 
- Dia, Rosa.
 
- Dia, Cinza.
 
Um raio próximo ao vermelho despontou no céu – um céu de Rosa, somente cinza:
 
- Parte minha é fria, a outra ainda não nasceu.
 
De repente, de mãos dadas ao vermelho, surge o amarelo.
 
- Rosa do céu, veja! Há beleza!
 
O laranja explodiu diante de Rosa.
 
- Alegria, minha gente, bora fazer uma manhã.
 
O galo cantou, Rosa nem olhou. O carro ligou, Rosa não partiu.
 
Foi, então, que chegou João. Pôs azul nos olhos de Rosa.
 
E violeta na cor do dia.
 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O desembrulho


 
- Uma folha é um carinho feito à mão. Soprou a brisa quando a menina abriu o papel e encontrou a seda.
 
O desembrulho revelou uma folha nova. Insuspeitável.
Era marrom, mas não com certeza.
Eram tantos marrons...
 
Era uma mão, um afago.
Uma folha de pelos.
Era um ouvido, uma atenção.
Uma folha de cheiros.
Era uma pá, um barco.
Uma folha de braços.
 
A menina mergulhou no embrulho azul e escuro e desembrulhou algo puro. O outono estendia a mão e pedia:
- Leia o presente, sinta o futuro.
 

terça-feira, 8 de abril de 2014

O embrulho




Papel de seda, conteúdo de outono.

A menina passou os dias com a folha embrulhada. Não conseguia abrir.

Imaginava o seco, as rugas, o formato. Tirar a seda e desembrulhar o outono diminuiria o enfeite da estação.

Tão bonito supor a folha. Adivinhar seu significado.

Ela parecia antiga, retorcida. Marrom, com certeza.

Acomodada no azul escuro, via-se claro o muro. O que separa a delicadeza do papel e o áspero do conteúdo, é a mão imóvel, sem rumo.

A folha tinha ido do chão à seda. Do nada pr'algum lugar. Desabrigar a folha não seria despejo? E abrir uma fresta, invasão?

Resolveu deixar ela ali, quieta. Vai ver é até flor. Ainda tem cheiro, cor.

E de dúvida tomada, a casa dela passou a ser... O interior.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A colheita

 
 

A menina morava perto da avó. Uma porta distante da outra por quatro ou cinco quarteirões, uma fileira de prédios e uma passarela que cruzava a linha do trem. No meio do caminho, quase em sonho, havia um jardim e um pomar.
A avó saia do era uma vez da sua casa, pro aqui e agora da filha, do genro e da neta. Sempre correndo, de um lado pro outro e do outro pro mesmo, os pais da menina pediam ajuda a avó, que deixava sua casa todos os dias carregando um cesto e um pote.
Um cesto e um pote. Era tudo de que precisava. Cismou em ser catadora. Um cesto de frutas, um pote de melado. Um cesto de flores, um pote de buquê. Um cesto de restos, um pote de tudo.
A colheita dos dias enfeitava a semana. Os meses, frutos de um cesto. Um pote de mês. Cheio? Vazio? Dependia do que colhia.
Em dias de chuva, passava quase correndo, pés nas poças, olhos baixos. Catava um pouco do pouco e ao chegar na casa da menina, dizia:
- Trouxe os pingos, um tantinho de lama e muito vento.
- Que coisas esquisitas são essas, vovó?
- É o cesto de hoje, minha querida. Do que será o pote?
- Um pote de... nada!
- Huum, adoro o nada desses dias de chuva! Os pingos brincando de escorrega nas janelas. O vento e seus filhotes nas frestas da porta, monte de convidado pra encher a casa.
- E a lama?
- Bom, com a lama, preciso confessar, não simpatizo muito não... Mas, tudo bem, deixa ela entrar! Não tem jeito mesmo. Ela gosta de deixar marcas, é só a gente passar por ela que, pronto!, ela cisma em ficar com a gente.
- Ah, vovó, isso é muito legal!!! Olha o tapete? Tá com os seus pés grudados!
Em dias de sol, a avó vinha vagarosa, custava a chegar. Cesto explodindo de tão cheio: lírios, rosas, figos, maçãs, abelhas e borboletas.
Batia na porta e a menina, com medo de ser outro alguém, perguntava:
- Quem é?
- Sou eu, minha netinha.
O cesto da primavera entrava na frente e já colhia sorrisos e curiosidade da menina.
- E o pote de hoje, querida?
- Um pote de...vida!
Durante alguns anos que não foram todos, a menina recebeu sua avó.
Até ser ela a carregar um cesto, um pote e um tantinho de lama, mesmo em dias de sol.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Feito de voo

 
 
Foi há pouco. Vi onde ele mora. Não tem nem uma semana, o vi voar.

Primeiro pousou inesperadamente na bermuda jeans. Eu nem estava sentada. Caminhava distraída com a Lupa, minha parceira de passos curtos e ritmados pelo bairro. Eu a guiá-la ou, talvez, o inverso, e um bater de asas pousou em mim.

Estátua. Se pudesse suspendia o latido da Lupa e engolia pra sempre o ar. Só que coração, apesar de escondido, revela gente. Uma batida avisou que eu não era de pedra.  Até a descoberta, foram cinco segundos de magia. Preta e azul. Cinco segundos pro olhar despertar. Na tentativa de capturar o instante, ele, aquele que se esconde, revelou:

- Não nasci pro flash. Sou feito de voo. Esconde-esconde.

Acordada, acompanhei a parada seguinte. O preto sumiu no azul e vi surgir o amarelo, em novo esconderijo. Nessa hora, brotou pensamento:

- Uma folha borboletando ou uma borboleta folheando?

Aprendi a ler na folha outro dia. O esconderijo é delicado como um bater de asas. Abre e fecha. Revela e some. 



Pra turma querida da Estação das Letras
que gosta de brincar de esconde-esconde.
 
Foto: arquivo pessoal