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sábado, 18 de julho de 2015

Vamos falar de perdão?

 

Não, não podemos falar sobre o perdão.

O amor também acontece no coração e muito se fala sobre ele.

E o perdão? Falo, logo, tudo perdoado.

Não, não podemos falar sobre o perdão.

O amor nasce e a palavra o alimenta (ou o mata de fome). Pode começar tufão ou ser apenas um sopro de amor. É falar dele que a imagem vem fresca. Ganha jardim. Voam os pássaros e as borboletas. Alcança-se um tronco torcido. Uma nuvem no céu. E pronto: o amor se inscreve. Até quando não há mais amor, se você fala dele o mantém vivo. É uma coisa sublime. Pode ser inventada.

O perdão é assim. Você recebe um aviso no peito: perdoa. Feito. Tranque o perdão e siga em frente. Sem tocar no assunto. Só que tem assunto com vontade própria. Vai você falar de perdão por isso, por aquilo e descobre: a porta está encostada. Dos infernos, o que você sente não é nem primo distante do perdão. Você quer morrer. Matar. Não adianta falar, você está longe. Longe de perdoar.

Dia desses, alguém disse: você perdoa quando não tem mais necessidade de falar.

Então, é isso? O perdão é calado?
Não chega anunciando feito amor. Nem quebrando pratos feito ódio.
O dia em que o perdão chega a gente nem sente. Senta e toma chá.

O perdão, suspeito, deve vestir manto branco. Envolve o coração e o faz parar de sangrar.

Perdão é paz?

Não, não podemos falar.



Foto 1: Sônia Ribeiro
Foto 2: Catarina Ribeiro
 Manto Mana, exposição "Maria de todos nós".

sábado, 9 de junho de 2012

O melhor dos brinquedos



Toda brincadeira parece feita pra avançar. Jogue o dado e ande o número de casas. Mire o chinelo, pegue-o sem pisar na linha e, se acertar, jogue de novo. Até o céu. Pule até cansar; tropeçou é a vez de outro. Assim, o jogo avança e recua. Parada obrigatória. Volte 3 casas. Perca a vez. Ganha quem chegar primeiro.
Será?
Numa partida, as aparências revelam conquistas. Um olhar conta: “quantas casas à frente?”. Um pé ansioso não hesita: “quanto pra chegar no céu?”.
Não conheço criança preparada pra perder. Nasceu já ganhando o mundo no berro. No jogo, pode olhar, é o mesmo. Perder, desde cedo, passa a ser uma baita lição. E de brincadeira em brincadeira, constitui-se um cidadão. Um dia – na verdade, em muitos – a gente perde. No outro – é bem verdade, em poucos – a gente ganha. Viver empatado, pra felicidade geral da nação, é raro, quase que nem bicho em extinção.
Quer ver jogo bom, assim pra tudo quanto é gente? É jogo inventado ou feito à mão. Jogo que vence o tempo e continua por aí. A bola que bate um bolão, a amarelinha que não perdeu sua cor, os jogos de tabuleiro, que até ganharam novos temas e embalagens, mas seguem sob o reinado dos pinos e do dado. A ciranda cresceu e as cantigas mudaram, mas ainda se vê crianças em roda. E pique-pega? Batatinha frita um, dois, três? Um punhado de gente e a brincadeira tá ali, pra pronta entrega. Aliás, um punhado de gente é o melhor dos brinquedos.
Vamos brincar de esconde-esconde? Contar até 10 – não vale olhar, hein? Tem quem olhe... Tem que sair pra todo lado pra se esconder, bem escondido. Tem quem queira aparecer... Mal esconde o riso. Foi achado, não vale denunciar o amigo. Tem quem aponte e o silêncio do gesto revela o escondido. Só não vê quem é cabra-cega, esconde-esconde revela-revela.
E assim, vestido de tempo, não ganha só quem chega primeiro. Quem um dia brincou conhece bem o segredo. 

 
Ilustração: Edmar Facó 

sábado, 11 de setembro de 2010

O mosquito e a tosse



Zzzz… Zzzz… Zzzz…
Cof, Cof. ... Cof, Cof.
A sinfonia não parava.
Zzzz… Zzzz… Zzzz…
Cof, Cof. ... Cof, Cof.

À noite os dois sons se reuniam em perfeita harmonia e a menina, em claro, não dormia.

Zzzz... Zzzz... Zzzz... Concentrada no mosquito, seguia o seu vôo. De zumbido em zumbido, sentia o baile do atrevido. Cobria-se toda. Não sobrava um pedacinho seu pro danado do mosquito, mas ela sabia que sua vigilância tinha hora. O sono ia chegar e ela não teria como escapar. Ele ia invadir seu esconderijo ou ela mesma abriria caminho se descobrindo.

Um olho pregou e o outro quase acompanhou. De repente, um novo som entrou.

Cof, Cof. ... Cof, Cof. Era tosse da mãe.
Vai ver era o aviso de quem ama.
Vinham os mosquitos: Zzzz... Zzzz... Zzzz...
Contra-atacava a mãe em defesa da filha: Cof, Cof. ... Cof, Cof.

Uma batalha. Noite adentro.

Tris-tras. Tris-Tras. Tris-tras.
Os passos arrastados do pai rumo à cozinha.
Fiuuummm-fiummm! O fogo fazia borbulhar a água do chá.

Tris-tras. Tris-tras. Tris-tras.
Os passos de volta à cama. Ao encontro da mãe. A menina podia sentir o pai, meio lá, meio cá, acariciar os cabelos da mãe e desejar pro chá, milagroso, adormecer a garganta da mulher. Soldado atento ao inimigo, meu pai não dormia em perigo.

Tris-tras. Tris-tras. Tris-tras.
Com a caneca vazia na mão, o pai ia ver a única filha. Cobertas no corpo, ok. Temperatura, ok. Carinho de última hora, ok.

A menina sorria sem ele ver. De olhos fechados, meio lá, meio cá, ela se despedia em silêncio do pai. Ela e a tosse.
Os mosquitos: Zzzz...Zzzz...Zzzz...