quinta-feira, 17 de junho de 2010

Botões



Saudade tem idade? Se tiver, a que sinto dos meus avós vai comigo daqui pra eternidade. Saudade às vezes dói. De uma dor que não se apaga. Se esconde, anda, trabalha. Não some. Não dorme.

Avós. A chance de conhecer o lado doce da vida. Dos bolos, das vontades feitas porque feitas, das fantasias alimentadas com sorrisos, idéias, palavras, presença. Sem o amargo das broncas, sem a culpa do sim, do não ou do talvez. Avô não erra. Avô avança.

Avós. Feitos de presente. Presente do passado. Experiência e amor doados. Amor aos montes.

Quer brincar de casinha? A avó dá o arroz, o feijão, todos os grãos. Se espalhar? É só catar. Avó sabe que a conseqüência é o do tamanho que a gente vê.

- E isso, Vô? O que é isso no seu peito?

- É um botão de uma camisa que ficou preso. Grudado em mim.

- Como assim?!

- A sua Bisa foi passar a minha camisa de botão. Eu era um menino. Logo depois que ela passou, nem pensei: vesti. De tão quente que o botão estava aqui ficou.

- Posso apertar?

- Olha que tá quente, Chulinha. Vem devagar.

Eu fui. Uma. Duas. Três. Milhares de vezes. Como quem toca brasa em fogo, eu tocava o botão do meu avô. A cada toque, a mesma história. O ferro. A Bisa. O menino. O avô. O botão.

Vai ver que são feitos assim, os avós: botões em nossos corações. Estão lá. Apertados. Quentes. Pra sempre.


Aos meus avós: Celso, Maria da Penha, Maria da Penha e Eddie.

Maria da Penha



A oração do anjo da guarda.
As compras na Cobal.
A conversa amiga com os feirantes.
A cantoria na igreja.
A catequese. A doação.
As novenas com pão de Jesus em casa.
O café. O almoço. O jantar.

Os encontros em família.
O amor ao próximo até o distante.
A conversa sem pressa no telefone.
A voz doce que acalma. A calma.
O incentivo na presença. No olhar. No carinho sem hora pra chegar.

O dever de casa. A vontade de ensinar.
O caderno de caligrafia.
O bolo de chocolate. A pizza inventada.
O riso alto e franco.
A coragem. A força. A imaginação.
O café. O almoço. O jantar.

Maria da Penha.
Ter uma já seria sorte grande, bilhete premiado.
O que dizer de duas?
Uma mãe do pai. Outra mãe da mãe.
Uma mais Maria. Outra mais Penha.
Ambas, minhas.
Meninas. Mães. Avós.


Às minhas duas Marias da Penha.                                       

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Torcedora



A menina era uma torcedora incomum. No seu time jogavam todos. Lados não havia. Só pontos de vista, ou melhor, uma vista aqui e outra ali pra torcer.

Logo que aprendeu a ler, a menina juntou-se ao time que sabe perder. Perder, juntar e misturar. Era uma espécie de turma que via em letra, trela. Em anagrama, a grama de Ana.

Torcer era contorcer, girar, mexer. No seu campo, uma palavra rala pra ser outra. Sua brincadeira preferida era encontrar muitas palavras em uma, inverter pra ter e ver.

Por exemplo, pegava AMORTECEDOR, torcia e criava:
Ter cedo amor.
O amor tece ou amortece a dor?
Mora amor na dor ou mora a dor em Roma?
O morador tece.
Tece a roda do amor.
Morte ao amor na dor.

Outro dia, ela cismou com JABUTICABA, remexeu e virou:
A aba do jabuti
Acaba em ti.

Assim, torcer virou mania. A menina já sabia. Quando ia ao metrô descia ao temor. No palco só via polca. Num ator sempre uma rota. No sabor e na estação ela só enxergava uma rosa, seta em ação. No livro, virol ou voril, genérico do doril!

E Carroceria? Seria um raro rio que ia? Não, não podia. Era só um raro que ria. Em Mariana ela sempre via duas: Maria e Ana. De aquecedor, ela suspeitava: será que realmente aquece a dor?

Vai ver essa mania que anima, vinha do nome que a mãe havia escolhido pra menina.

Diva vida via e, por isso, torcia.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Olho-D’Água



Ponto de chegada: a dor.
Sob a areia, a lama, desapareceu a casa e, com ela, o menino.
Onde estava? Podia ser outro?

O bombeiro cava. Tenta. Sofre.
O pai está lá. Assiste. Chora.

Olhos d’água numa família.
Inteira? Totalmente pela metade.
Partida. Destruída.
Como a casa fica a família.
Soterrada. Sufocada. Sofrida.

Terá sido um rascunho de vida?

No céu uma nova estrela habita.
Uma vida eterna. Sem esboço. Definitiva.
O menino mora no Paraíso.
No ar. Livre. Solto.

Aqui fazemos nossos rascunhos de vida.
No chão. Presos. Envolvidos.

Cadê o menino?
Está na mãe, no pai, nos avós, nos primos, nos tios, nos amigos.
Olhos-D’Água de sua família. Perene.
Chegou até mim, até você, a todos nós.

Viver com os outros dentro de si.
Povoado por eles. Junto deles.
Uma linha entre o céu e a terra.
Invisível. Forte. Permanente.
Ponto de partida?

A cada dia, um novo começo.
Um rio pode até secar.
Pela areia ser coberto, interrompido.
Mas um Olho-D’Água pra sempre viverá.


Dedico a Marcus Vinícius, o menino.

O fiapo de Carolina



Cabelos cacheados, abaixo do ombro. Branquinha como areia da praia. Grande como um gigante. Brincava, corria e estudava. Como toda criança, Carolina era única e parecida. Diferente e igual.

Um dia Carolina viu que três manias não combinavam: dormir, ver TV e ajeitar os cabelos. Acho que foi assim que Carolina descobriu, sem conhecer, que se duas coisas não ocupam o mesmo espaço, imagina três!

Dorminhoca por parte de mãe; fascinada por TV por parte de pai e vaidosa por natureza própria tinha dias que o tempo não a ajudava. Os minutos eram poucos ou rápidos demais para os desejos de Carolina.

- Se durmo demais, não vejo TV. Se vejo TV, não faço o dever. Se ajeito o cabelo, não chego a tempo. Como fazer?

Não adiantava a mãe explicar sobre as horas, os minutos e os segundos. Pra Carolina existia todo tempo do mundo.

A mãe ia da doçura à loucura em segundos, mas Carolina não entendia...

Até que numa manhã um desastre aconteceu! Um fiapo se desprendeu! Dos cabelos presos em maria chiquinha de Carolina, o Fiapo fez uma revolta pra contar uma história.

Carolina agarrou os cabelos com força, como se não fossem seus, e falou:

- Estou horrível!! Olha este fiapo solto!!! Não vou assim e pronto!

Faltava 5 minutos pra chegar na escola e a menina perdida com seu Fiapo, nem deu bola.

O Fiapo, sem demora, falou aos quatro ventos:

- Carolina você escolheu.

- Escolhi, o que!? Sair com você a dar tchau na rua pra todo mundo?

- Escolheu dormir mais que a cama. Como já tinha feito o dever, escolheu ligar a TV. Lembro da mamãe perguntando: “Filha vamos tomar banho, arrumar o cabelo?” e você respondeu: “Me arrumo rápido, prefiro ver TV”.

- Mas Fiapo, por favor, vá pro seu lugar! Veja! Estou horrível!

- Menina... O que é um fiapo solto num sorriso maroto?

- Querida, vamos! Olha a hora! – gritou a mãe.

A menina olhou pra Fiapo. O Fiapo olhou pra menina. Diante de sua escolha, lá se foi Carolina.


Dedico à minha pequena Helena.                           Foto: Juliana Failace