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quarta-feira, 28 de maio de 2014

A cor do dia


 
O dia amanheceu branco. Cor de nada.
 
Rosa caminhou transparente até esbarrar com o cinza do dia.
 
- Dia, Rosa.
 
- Dia, Cinza.
 
Um raio próximo ao vermelho despontou no céu – um céu de Rosa, somente cinza:
 
- Parte minha é fria, a outra ainda não nasceu.
 
De repente, de mãos dadas ao vermelho, surge o amarelo.
 
- Rosa do céu, veja! Há beleza!
 
O laranja explodiu diante de Rosa.
 
- Alegria, minha gente, bora fazer uma manhã.
 
O galo cantou, Rosa nem olhou. O carro ligou, Rosa não partiu.
 
Foi, então, que chegou João. Pôs azul nos olhos de Rosa.
 
E violeta na cor do dia.
 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O desembrulho


 
- Uma folha é um carinho feito à mão. Soprou a brisa quando a menina abriu o papel e encontrou a seda.
 
O desembrulho revelou uma folha nova. Insuspeitável.
Era marrom, mas não com certeza.
Eram tantos marrons...
 
Era uma mão, um afago.
Uma folha de pelos.
Era um ouvido, uma atenção.
Uma folha de cheiros.
Era uma pá, um barco.
Uma folha de braços.
 
A menina mergulhou no embrulho azul e escuro e desembrulhou algo puro. O outono estendia a mão e pedia:
- Leia o presente, sinta o futuro.
 

terça-feira, 8 de abril de 2014

O embrulho




Papel de seda, conteúdo de outono.

A menina passou os dias com a folha embrulhada. Não conseguia abrir.

Imaginava o seco, as rugas, o formato. Tirar a seda e desembrulhar o outono diminuiria o enfeite da estação.

Tão bonito supor a folha. Adivinhar seu significado.

Ela parecia antiga, retorcida. Marrom, com certeza.

Acomodada no azul escuro, via-se claro o muro. O que separa a delicadeza do papel e o áspero do conteúdo, é a mão imóvel, sem rumo.

A folha tinha ido do chão à seda. Do nada pr'algum lugar. Desabrigar a folha não seria despejo? E abrir uma fresta, invasão?

Resolveu deixar ela ali, quieta. Vai ver é até flor. Ainda tem cheiro, cor.

E de dúvida tomada, a casa dela passou a ser... O interior.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Feito de voo

 
 
Foi há pouco. Vi onde ele mora. Não tem nem uma semana, o vi voar.

Primeiro pousou inesperadamente na bermuda jeans. Eu nem estava sentada. Caminhava distraída com a Lupa, minha parceira de passos curtos e ritmados pelo bairro. Eu a guiá-la ou, talvez, o inverso, e um bater de asas pousou em mim.

Estátua. Se pudesse suspendia o latido da Lupa e engolia pra sempre o ar. Só que coração, apesar de escondido, revela gente. Uma batida avisou que eu não era de pedra.  Até a descoberta, foram cinco segundos de magia. Preta e azul. Cinco segundos pro olhar despertar. Na tentativa de capturar o instante, ele, aquele que se esconde, revelou:

- Não nasci pro flash. Sou feito de voo. Esconde-esconde.

Acordada, acompanhei a parada seguinte. O preto sumiu no azul e vi surgir o amarelo, em novo esconderijo. Nessa hora, brotou pensamento:

- Uma folha borboletando ou uma borboleta folheando?

Aprendi a ler na folha outro dia. O esconderijo é delicado como um bater de asas. Abre e fecha. Revela e some. 



Pra turma querida da Estação das Letras
que gosta de brincar de esconde-esconde.
 
Foto: arquivo pessoal

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Estados

 
 
Feito água, mudo.

Freqüentemente estou em estado líquido, derramada. Jorro pra todos os lados e em muitas situações. Uma área alagada ou sujeita a fortes tempestades.

Já fui encontrada sólida, gelada. Não tão raro, uma pedra. Acontece quando perco o chão ou o rebolado. Congelo. Sem ação.

Passado o susto, vaporizo. Torno-me invisível. Por motivo de evaporação, sumiço de mim mesma, ou ebulição, conflito com Deus e todo mundo. Fujo, vagando gasosa por aí.

Há dias que posso trancar-me em estado irreconhecível. Condenso e recomeço a transformação.

Minhas mudanças de estado são feito água, mas ainda chove bastante no meu sertão.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Noutro




Não foi naquele dia. Foi noutro.
Naquele dia eu estava muito distraído. Na mesma sala, mas noutro canto.
Todos eram abraços de saudades, eu de braços cruzados. Todos contavam novidades, eu calava minha notícia. Todos falando de praia, sol e mar, eu era pedra, lua e vento.
Meu material sem lápis e cor. Meu uniforme não estava bem passado. Estava mesmo amarrotado. Virado do avesso.
Naquele dia, vestido de novo, eu estava noutro. Naquele outro, sabe?
Não sabe? Não sei se te conto...
Foi noutro, perto desse, que a novidade me encontrou. A galope levou os dias claros, o sol, a pipa, o futebol. Arrastou os dias de vida mansa, riso frouxo e conversa fiada. Colocou-me em aula, ainda nas férias. Lição difícil.
Passeava por esse dia, quando meus braços descruzaram, a mão caiu sobre a mesa e a dela me alcançou.
Naquele dia, ela fez sumir o outro.
 
Foto: arquivo pessoal
Verso de Pablo Neruda, gravado em pedra, na Cátedra da PUC-RJ

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Meia-volta


 
De longe, ela parecia grande.  Foi numa tarde sem pretensões de ser ensolarada que uma professora aproximou-se dela. Uma aula, depois outra e mais outra. Nem se sabe quantas foram dadas pra que a moça desse meia-volta (ou teria sido uma volta inteira?).
Primeiro voltou à infância vestida de velha. Depois, despiu-se do que era pra encontrar o que tinha sido. Fechou os olhos e viu sua vila. Seus amigos. Seus avós. Seus pais ainda juntos. Seus irmãos ainda pequenos.
O barulho do monte de pés correndo foi aumentando, conforme ela comandava o botão que amplificava as sensações. Podia agora escutar os gritos da criançada debaixo da sua janela jogando vôlei – um barbante esticado de uma ponta à outra, de um bloco ao outro, preso no gancho que segurava a janela quando aberta.
As janelas abriam pra fora, de dentro pra fora. Hoje, a maioria desliza. Eram dois braços, com duas partes cada. A primeira de vidro e veneziana mantinha os segredos e dava fresta à luz. A segunda era uma aba interna, uma madeira sem vista, que deixava a casa às escuras. Quando os braços abriam juntos, escancaravam tudo e ficavam presos ao gancho pra permanecerem firmes, sem bater palmas. Era uma janela em camadas, revelava ao gosto do morador: aos poucos ou de uma vez.
Por um momento, sentiu-se janela.
Bom era abrir aquela janela. Ela morava no primeiro andar, como sua avó. Seu apartamento: de fundos. O da vó: de frente. A amarelinha rolava na calçada em frente ao da vó. Quando batia sede, era um pulo, um pé trapezista no muro, um joelho no parapeito e o resto do corpo já anunciava:
- Vó, tem água?
Isso, quando o prazer não era só pular silenciosa e “Bú!” pra avó. Saudade da janela que contava aos poucos e se entregava inteira.
Éramos tantos e até tarde, que dormir era quase um sacrifício. Desconfio que todos cochichavam pro santo travesseiro:
- Que o sono venha logo e passe rápido. A manhã já chegou!
Cada dia era o mesmo sendo diferente. Era um lugar como qualquer outro: de crianças, janelas e ruas.  
Quem me escuta contar essa história, às vezes pergunta se a moça é criança. Quem a vê de longe jura que cresceu. Eu guardo as minhas dúvidas.
Faz pouco tempo ela se deparou com “O Fazedor de Velhos” e com o Pacífico, outro mestre em envelhecer espíritos. Nesse encontro de tinta, ela descobriu algo curioso:
- Conheço uma “Fazedora de Crianças”. Uma professora que resgata lá de dentro o que jamais deixamos de ser. Crianças que gostam de despertar.
Toda vez que o escuro incomoda, a moça escancara a janela e trata de chamar a menina. Dá meia-volta e sorri.

Foto: arquivo pessoal

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Os aros de Carlos



Dois aros permitem ir mais longe. O menino circulava muito, passeava por tudo, absorvia a todos. Bastava estar com seus aros. Estacionado ou a caminho, seus pensamentos pedalavam no ritmo da rua, nos ares da casa.
Se estavam bem, Carlos seguia tranquilo, sem segurar no guidom. Se o ruído entrava, mergulhava de aros e tudo.  Dá-lhe a pedalar pra dentro. Caminho comprido esse. Às vezes, se perdia. Às vezes, se encontrava.
Um dia tiraram as rodinhas de Carlos, pensaram que já era carro: pronto pra correr, se aventurar, abrir trilha em mata fechada. Mas ele era um menino. Só um menino.  E pediu apoio. O vento fez cócegas, o chão foi menos áspero, o horizonte abriu-se generoso e ele seguiu. De aros.
Em dia de curva, na hora de subir ladeira ou acionar o freio pra não bater, lá estava ele, firme com seus aros. Carlos fez-se buzina pra acontecer. E um par de olhos acompanhado de aros vê mais longe, alcança por dentro o dentro das coisas.
Quem olha pra Carlos vê um par de aros. Eu suspeito que sejam flores.

Foto: arquivo pessoal

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Adormecida



Era de um verde que acolhia. Uma vez na cidade que dormia. As casas plantadas. Brotavam da mata, em zigue-zague, cortando as colinas.

Quando o menino passou por ela, na cesta de um balão, viu tudo inclinado. Coçou os olhos, uma, duas vezes. Era uma cidade ou pontos perdidos no chão? Ouvia só a voz do vento. A vista contou casas, uma igreja, uma ponte e um casarão. E o movimento?

O seu passeio saiu de Juiz de Dentro em direção à Mata. Esperava ver o verde, as colinas e seus moradores-bichos. Queria encostar no teto do mundo, balançar, ver o fogo encher de cores o céu e ser ele o comandante da viagem. Numa aventura prevista, com o moço dono do balão e a mãe, ele deu de cara com a cidade.

- Moço, moço, olha lá!!

- Lá onde, menino?

- Lá embaixo! Olha só! Mãe, você está vendo?

- Vendo o quê, meu filho?

E dá a coçar os olhos e a suspeitar de si mesmo. Ele apontava aflito.

- Mãe, a igreja é linda! Tem até duas torres, dois sinos. E aquele casarão, moço, cheio de vãos, sem portas, um convite pra entrar! Pára, pára o balão! Eu quero saltar!

- Lucas, é impossível! Com o tanto de morro que tem aqui, se a gente desce, não sobe nunca mais.

Nesse instante, ele cogitou morar ali mesmo, nas casas brancas de telhas vermelhas. Podia ser naquela pequenina, antes da ponte.

- Mãe, você não disse que seria uma aventura? Pois então. A aventura está lá.

- Filho, não há nada lá.

- Há sim!! Não vejo ninguém, mas sinto cheiro de gente! Não ouço nada, mas sinto o som do mundo!

Foi falar isso e Lucas viu um menino atravessando a ponte. Um único menino, pé descalço e calça curta. Depois, outro, saia da casa vizinha, e mais uns tantos vindo de todas as partes. Corriam em direção à Igreja e ele previa o sino.

Lucas sorria. A mãe olhava de canto de olho pro moço do balão, que estava preocupado em manter tudo em ordem. Balão no céu, voando em segurança, no ritmo certo. E olhava pra Lucas. Feliz.

- Filho, eu vi!! É mesmo, que igreja linda! Será que tem missa hoje?

- Eu não disse! Olha quanta criança correndo, mãe! Deve ser festa junina ou quermesse, sei lá. A alegria é tanta, que não pode ser só pra ouvir o padre falar.

- De repente, é pra ver alguém dessa cidade, cravada nas colinas. Quem mora aqui tem muita sorte!

- Mãe, não parece uma cidade adormecida? Se a gente descer, pode acordar ela pro moço do balão.

- Filho, cada um vê o que pode, enxerga o que quer. E dor, às vezes, é melhor deixar dormindo.

E os dois viram um homem acenando pra eles. Do lado de lá.

O balão fez sombra ao passar e seguiu viagem.


Ilustração: Nelson Cruz, livro "Dirceu e Marília"
Catálogo da Cosac Naify
Coleção Histórias para contar História