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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Vento



O Vento sumiu e tudo parou. Sem Vento, o mar não tinha onda. O dia não tinha graça. A paisagem nunca mudava.

Houve uma vez em que Vento ventava. Mas, quando ele chegava, muita gente não gostava. Dado a mexer, movimentar, levantar pó, pensaram se não era melhor Vento ventar só.

Em país de brisa fácil, o desejo venta rápido. Amanheceu, então, o dia em que o Vento desapareceu.

Até a chuva se escondeu. Chuva sem Vento cai tão sem jeito, sem dança. Direto ao chão, sem qualquer mudança.

Parecia de papel, retrato emoldurado, um mundo de vento parado.

Enquanto todos de estátua fingiam brincar, uma criança resolveu o Vento chamar.

Puxou seu ar, soprou forte, agitou o corpo e... fez-se Vento.

Renovado, cheio de brisa e sereno, Vento voltou a deixar tudo mais ameno. Com sua graça improvisada de fazer alga z z z z zarra, Vento, agora, ventava.

A Onda



Uma onda invadiu a praia. Tão forte, pesada e barulhenta que logo pensei:

- Será que ela está aborrecida?

No segundo estrondo, a certeza. O mar sente igual gente.

Triste, chora longas ondas. Marcas profundas no chão.

Alegre, corre pra lá e pra cá, depressa. Brincando de bolinha de sabão.

Em fúria, arrasa e arrasta tudo. Gigante a amedrontar.

Há dias em que está calminha. Vira marola tranquila e nos convida a entrar.

A onda é o jeito de o mar falar.

Quando bate forte na pedra é um aviso de que o mar não está pra peixe. Melhor não mergulhar.

Gelada, anestesia a mente e, por um instante, nos misturamos ao mar. Sentidos entregues à vontade de nadar.

A onda não tira onda com a gente. É clara, faz espuma para explicar. Para bom entendedor, meia onda basta.

Dentro do mar, furo a onda, subo em sua crista, me escondo para esperar ela passar.

A onda é como eu. Adora brincar.

Eu sou como a onda. Também sei chorar.

Foto: Edmar Facó

À minha mãe, pelas revisões e apontamentos sempre tão oportunos.
Ao meu pai, pela inspiração.