quinta-feira, 3 de junho de 2010

Olho-D’Água



Ponto de chegada: a dor.
Sob a areia, a lama, desapareceu a casa e, com ela, o menino.
Onde estava? Podia ser outro?

O bombeiro cava. Tenta. Sofre.
O pai está lá. Assiste. Chora.

Olhos d’água numa família.
Inteira? Totalmente pela metade.
Partida. Destruída.
Como a casa fica a família.
Soterrada. Sufocada. Sofrida.

Terá sido um rascunho de vida?

No céu uma nova estrela habita.
Uma vida eterna. Sem esboço. Definitiva.
O menino mora no Paraíso.
No ar. Livre. Solto.

Aqui fazemos nossos rascunhos de vida.
No chão. Presos. Envolvidos.

Cadê o menino?
Está na mãe, no pai, nos avós, nos primos, nos tios, nos amigos.
Olhos-D’Água de sua família. Perene.
Chegou até mim, até você, a todos nós.

Viver com os outros dentro de si.
Povoado por eles. Junto deles.
Uma linha entre o céu e a terra.
Invisível. Forte. Permanente.
Ponto de partida?

A cada dia, um novo começo.
Um rio pode até secar.
Pela areia ser coberto, interrompido.
Mas um Olho-D’Água pra sempre viverá.


Dedico a Marcus Vinícius, o menino.

Um comentário:

  1. Muito bom esse texto, referente as perdas , dores e rascunhos da vida.
    E a vida continua no rascunho...os olhos d'agua...os meninos virando estrelas...muitos com nada...poucos com muito...
    Continuamos esquecendo_quecendo_cendo_do_o..., o amor...
    E o texto da a dica que podemos recomeçar a cada dia...
    Edmar

    ResponderExcluir