sábado, 10 de setembro de 2011

O miolo das coisas



Uma homenagem para Bartolomeu Campos de Queirós
Resenha do livro "O olho de vidro do meu avô", Ed. Moderna, 2004.

Você vê bem? Olha ao redor? Por dentro das coisas? O que enxerga? O olhar contemplativo, dos detalhes que despertam (ou, às vezes, adormecem), dizem, é mais característico dos poetas e dos loucos. Você, Bartolomeu, é um poeta. Dono de uma prosa lírica capaz de nos atravessar, nos convida no livro O olho de vidro do meu avô a ver o que somos: seres pela metade. O olho de vidro do avô se torna uma parte da dualidade humana. É a metade fria, escura, que desvenda o que não vê sob a luz da imaginação, que fica à margem, esconde, viaja, adivinha, procura a profundidade das coisas, mente e duvida. O olho que enxerga é a outra parte: a metade quente, clara, que vê a superfície das coisas. É o olho das certezas, que não suspeita e só fala a verdade. Um olho é a Lua; o outro, o Sol.

Com esse jogo metafórico e graças a um olhar próprio sob parte de sua história, suspeito que o autor assume o papel de narrador e, a cada linha, nos faz ver. Vi muito no seu texto, mais do que certamente serei capaz de mencionar aqui. O livro todo é um convite para se tentar alcançar “o miolo das coisas”:

“O pensamento atravessa as cascas e alcança o miolo das coisas. Os olhos só acariciam as superfícies. Quem toca bem dentro de nós é a imaginação.”

O autor-narrador nos mostra pouco a pouco, palavra por palavra, como sua história pode, também, ser nossa. Mistura realidade e fantasia como alguém que vê na alma, o que a “casca”, a superfície humana, não nos deixa perceber. E, assim, seu texto nos revela.

Ao mergulhar nesta prosa e deixar-se envolver, é possível que o leitor, como eu, se questione: será que, como o avô do menino, também não tenho um olho de vidro? Afinal, quantas vezes não me vi dona de um olhar “frio”, “distante”, que quer ver além do que a vista alcança?

A narrativa é construída a partir de um fato: seu avô materno só enxergava com um olho e vai até São Paulo comprar aquele que lhe moldaria o rosto, o misturaria às massas. Para esconder sua diferença, fazendo-se parecer igual, o avô quis comprar um olho de vidro. E assim o fez. Assim, me pergunto, não fazemos nós? O desejo de pertencer, de parecer igual, pode esconder, à primeira vista, nossas diferenças e idiossincrasias. Mas elas estão lá. Basta mais de um olhar.

Bartolomeu, você é um artesão da palavra. Este livro é mais um exemplo da sua capacidade de usá-las, re-significar ditados ou ditos populares, empregar a metáfora de maneira recorrente sem que nos percamos. Ao contrário, cada metáfora parece nos conduzir pelo texto de maneira a ver nele mais do que a história que é contada.

A expressão “menina dos olhos” ou ditados como “em terra de cego quem tem um olho é rei”, “cego é aquele que não quer ver”, entre tantos outros utilizados no texto, ganham duas importâncias: aproximam o texto da linguagem do dia-a-dia e, com isso, do leitor e propõem uma visão diferente de algo conhecido. Brincando com o nosso universo lingüístico, de significados, você nos provoca, mais uma vez, a ver além.

As sensações são tantas no contato com este texto autobiográfico que, somado aos livros Por parte de Pai e Vermelho Amargo, adquiro a quase certeza – já que não se tem certeza de nada – de que você não poderia fazer outra coisa na vida que não fosse Literatura. Das duas, uma ou, quem sabe, as duas: ou transformou a sua história a partir de um olhar singular ou se enriqueceu dela para nos contar.

Ler O olho de vidro do meu avô é como se sentir povoado, é como abrir uma porta para a palavra e deixá-la entrar: “Palavra povoa tudo. Corta o silêncio e, aonde chega, fica. Se a gente escreve, pode apagar, mas, se falamos, fica impossível recolher as palavras. Palavra é como borboleta, bate as asas e voa. (...). Para voar é preciso asas leves e muito vazio pela frente. Para falar é preciso ter o que dizer.”

Bartolomeu, obrigada por ter o que dizer!


Agradeço a Estação das Letras, em especial a Ninfa Parreiras, a Suzana Vargas e a Tatiana Oliveira pelo convite para participar da homenagem ao autor que tanto leio e admiro, hoje, na Bienal do Livro, no Espaço do FNDE / MEC.

Aos meus amigos de oficina que também participaram desta homenagem ao Bartolomeu com seus textos, poesia e haicais: Pepita Sekito, Carol Estrella e Jurandi Siqueira.

Ao Arthur, a Helena, a Gilda, ao Paulo Henrique, ao João Pedro, ao Guilherme e a Tainise pelo presente da presença.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Entre linhas



Ser da escuta
Dá morada
À palavra
Ao outro

Entre linhas
Respirações
Pensamentos
Revela-se

Pontua
Corta
Mostra
Questiona

Abre caminho
Pra dúvida
Companheira
Da escrita


À mestre, Ninfa Parreiras, com carinho pelo dia de hoje!

Imagem: do livro "Um teto de céu", de Ninfa Parreiras,
ilustrado por André Neves. Editora DCL.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011



Há quem veja
No coração
A oração

Há quem sinta
O rosto corar
Ao orar

Há quem atravesse
Uma palavra
Sem olhar

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Passarinho



Criei grades como quem
Cria passarinho

Cada haste faz seguro
O meu ninho

Voar entre conhecidas paisagens
Cercada de alpiste de coragem

Minha gaiola é meu canto
Abrigo quente, feito manto

Pouso leve, voluntário
Quando voo, vou em bando

Nasci pra cantar em parceria
Permanecer em harmonia

Bato asas com os pés no chão
Meu voo é feito de coração

Nas grades que criei
Sou pássaro livre
Livre, como só eu sei

O lápis



Risca e rabisca. Conta, reconta, inventa. Diz o que vai pela ponta do pensamento. Às vezes, treme, segue a gente. Gosta de preencher vazio. Inclinado a dar opinião.

Vive muito quando é apenas decoração. Se usado, aponta os caminhos e some rápido. Quando é de estimação, vira cotoco e some na mão.

Apagar não é com ele. Há quem grude com este fim, mas ele sempre diz:

- Eu sou o começo, o meio e a inspiração. Não apago nada não!

O papel onde deita a sua fantasia pode ser liso, com pauta, sem nada. Ser solto na vida ou vir acompanhado. Melhor se for branco pra deixá-lo correr pra todo lado.

Andaram dizendo que a vida dele está por um triz. As letras soltas já não dão mais a mão. Das teclas de onde agora as palavras nascem é cada dedo por si e nenhum pelo outro. Comandados, batem forte, tal qual marcha-soldado:

1, 2 vão por ali
3, 4 pra todo lado
5, 6 um de cada vez
7, 8 escrevam dezoito
9 e 10 acabaram-se os papéis.

O apontador sai de cena de fininho, os dedos já não se abraçam. É raro vê-los dançando juntos, coladinhos.

Ele? Resistente, teima em se fazer presente. Feito de madeira, grafite e coração, um bom lápis pulsa, preenchendo a imensidão.

A maleta do meu pai



Uma maleta engraçada. Em seu conteúdo muito menos que nada.
O dedo curioso abria a maleta do pai. A vista só alcançava papel branco e tinta preta.
- Que coisa mais sem graça... – a menina declarava.
Quando o pai chegava era a maleta que primeiro entrava. Preta, fechos de ouro, reluzia como o sapato de couro.
Na casa moravam a menina, a mãe, o pai e a maleta.
- Meus pais têm duas filhas – às vezes, ela dizia.
Cada uma tinha um quarto. Uma cama.
A maleta dormia com os livros. Ela com as bonecas. A maleta só trabalhava. Ela ia a escola e brincava.
O pai passava horas no quarto da maleta. Aberta, ela despejava tanto papel de tinta preta, que a menina achava que, um dia, seu pai se afogaria num mundo sem cor.
- Já sei!
A menina correu para o quarto e lá ficou. Usou tintas, lápis, retalhos e criou... o seu maleto! Verde por fora, colorido por dentro. Com alça macia e um mundo de coisas: álbum de figurinhas, sol vermelho e preto, montanha de neve colorida, mar pra todo lado, anzol e muita, muita linha. No canto, dentro do seu maleto, ela acomodou o estojo novo, os dois livros preferidos e um tanto de folhas branquinhas, lisinhas, para o pouso das mãos, enquanto a vista passearia.
No outro dia, ao lado da maleta estava o seu maleto. Carregava um bilhete:
Fiz mais um filho pra você! O Seu Maleto é todinho seu! Beijos, Bebel
Obs.: se quiser, eu divido meu quarto com ele!


Foto: capa do livro "a maleta do meu pai",
de Orhan Pamuk  - Ed. Companhia das Letras

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Borboleta Branca



Entre ruínas, plena
Feito tijolo, forte
Sem tinta. Sem corte.

Na maré dos olhos
Pousa a borboleta branca
Passeia pela emoção

Ali, diante dela
Não era o amargo do vermelho
Era o doce do branco

Folha vazia
Nas asas da borboleta
Deita a fantasia

O tempo ancorado

Em festa, o antes voa
Em rito, o agora fala
Em espera, o depois lá fora

Encontro marcado
Por presentes
Presenças de presente

Na alma da borboleta
No verso do poeta
Na graça de uma gente

A borboleta some
A homenagem termina
A menina caminha

Acomoda na mão
Uma bagagem nova
Vidro cheio de gratidão



Ilustração: capa do livro "Vermelho Amargo"

Ao homenageado da FLIST 2011, Bartolomeu Campos de Queirós,
e a todos os presentes - inclusive a Borboleta Branca! - que lotaram, no dia 14/05, o Parque das Ruínas de emoção.