sábado, 1 de dezembro de 2012

Ponto e Cruz II

 

Um rosto rendado
Feito em ponto e cruz
Uma linha puxa outra
 
Bordado simples e complicado
Entre um e outro
Pausas
 
Pensamento no próximo
Ponto
Ou seria no anterior?
 
A renda aguarda
Nova linha
Guarda memória
Das alinhavadas
 
Melhor deixar a mão correr
Decidir o traçado
O novo parte do velho
E borda, borda, borda
 
Traçado branco
Encarde
Renda envelhece
Muda de cor
 
Bordado feito
Ou a espera das agulhas
É tudo arte

 
 
Para Vó Maria
 
Porque o bordado continua...

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ponto e Cruz

 
 
Um rosto rendado. Feito em ponto e cruz. Uma linha puxa outra. Dá pra ver bordado simples e complicado. Entre um e outro, pausas.
 
Pensamento no próximo ponto. Ou seria no anterior? A renda aguarda o surgimento de nova linha e guarda memória das alinhavadas.
 
Melhor deixar a mão correr, decidir o traçado. O novo parte do velho e borda, borda, borda.
 
Traçado branco, encarde. A renda envelhece. Muda de cor. Às vezes, ganha novas linhas. A renda se renova.
 
Bordado feito ou a espera das agulhas. É tudo arte.
 
 
 
Foto: Bruges, Bélgica, Julho/2010.
Arquivo Pessoal.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

À sombra da palmeira


 

A palmeira espana o céu. Do alto de sua majestade desenha nuvens. Alcanço apenas a sua possibilidade. E a reverencio.

Suas folhas arrastam a tempestade, jogam a chuva pra lá. Ver palmeira é ganhar céu azul. Varrer cinzas. Limpar o horizonte. Deixá-lo pontilhado de branco pra sonhar formas.

Acompanhar uma palmeira no seu exercício de descortinar o céu é enxergar todas as cores do branco.

Tão alta. Só toco o caule, arranho a superfície.

Na sombra do escritor, a vi florescer. Em mim. Depois, brotou curiosidade.

Palmeira floresce?

Floresce linda, exuberante, uma vez na vida. Pode levar de cinco a oito décadas. Depois da flor, de suspender olhares e ir além dela mesma, começa a morrer. Lentamente. Aos montes, espalha sementes. Dá adeus e cai por terra.

Do ar celestial ao andar do homem. Se gente vira estrela, palmeira vira grão. Do toque no céu ao esconderijo do solo. Num sobe e desce vagaroso.

Quem um dia a plantou aqui, nessas terras tropicais, sabia que não conheceria a flor. Floresceu antes. Quando isso aconteceu, desconfio que houve o encontro das pontas. A planta esticou num branco encardido e a estrela a tocou com a ponta brilhante.

Teve alguém que viu e fotografou. Deve ter olhado pro lado, pro filho, e uniu as pontas.

 

Para Luiz Raul Machado e seu Cristal, um dos brancos mais lindos.



Fotos:
Capa do livro "As 17 cores do branco", de Luiz Raul Machado,
Editora Galera Record, 2012. Ilustração Ana Freitas.
Matéria Veja.com, 09/12/2009, "Explosão de beleza". Foto Selmy Yassuda


sexta-feira, 22 de junho de 2012

Meia-volta


 
De longe, ela parecia grande.  Foi numa tarde sem pretensões de ser ensolarada que uma professora aproximou-se dela. Uma aula, depois outra e mais outra. Nem se sabe quantas foram dadas pra que a moça desse meia-volta (ou teria sido uma volta inteira?).
Primeiro voltou à infância vestida de velha. Depois, despiu-se do que era pra encontrar o que tinha sido. Fechou os olhos e viu sua vila. Seus amigos. Seus avós. Seus pais ainda juntos. Seus irmãos ainda pequenos.
O barulho do monte de pés correndo foi aumentando, conforme ela comandava o botão que amplificava as sensações. Podia agora escutar os gritos da criançada debaixo da sua janela jogando vôlei – um barbante esticado de uma ponta à outra, de um bloco ao outro, preso no gancho que segurava a janela quando aberta.
As janelas abriam pra fora, de dentro pra fora. Hoje, a maioria desliza. Eram dois braços, com duas partes cada. A primeira de vidro e veneziana mantinha os segredos e dava fresta à luz. A segunda era uma aba interna, uma madeira sem vista, que deixava a casa às escuras. Quando os braços abriam juntos, escancaravam tudo e ficavam presos ao gancho pra permanecerem firmes, sem bater palmas. Era uma janela em camadas, revelava ao gosto do morador: aos poucos ou de uma vez.
Por um momento, sentiu-se janela.
Bom era abrir aquela janela. Ela morava no primeiro andar, como sua avó. Seu apartamento: de fundos. O da vó: de frente. A amarelinha rolava na calçada em frente ao da vó. Quando batia sede, era um pulo, um pé trapezista no muro, um joelho no parapeito e o resto do corpo já anunciava:
- Vó, tem água?
Isso, quando o prazer não era só pular silenciosa e “Bú!” pra avó. Saudade da janela que contava aos poucos e se entregava inteira.
Éramos tantos e até tarde, que dormir era quase um sacrifício. Desconfio que todos cochichavam pro santo travesseiro:
- Que o sono venha logo e passe rápido. A manhã já chegou!
Cada dia era o mesmo sendo diferente. Era um lugar como qualquer outro: de crianças, janelas e ruas.  
Quem me escuta contar essa história, às vezes pergunta se a moça é criança. Quem a vê de longe jura que cresceu. Eu guardo as minhas dúvidas.
Faz pouco tempo ela se deparou com “O Fazedor de Velhos” e com o Pacífico, outro mestre em envelhecer espíritos. Nesse encontro de tinta, ela descobriu algo curioso:
- Conheço uma “Fazedora de Crianças”. Uma professora que resgata lá de dentro o que jamais deixamos de ser. Crianças que gostam de despertar.
Toda vez que o escuro incomoda, a moça escancara a janela e trata de chamar a menina. Dá meia-volta e sorri.

Foto: arquivo pessoal

sábado, 9 de junho de 2012

O melhor dos brinquedos



Toda brincadeira parece feita pra avançar. Jogue o dado e ande o número de casas. Mire o chinelo, pegue-o sem pisar na linha e, se acertar, jogue de novo. Até o céu. Pule até cansar; tropeçou é a vez de outro. Assim, o jogo avança e recua. Parada obrigatória. Volte 3 casas. Perca a vez. Ganha quem chegar primeiro.
Será?
Numa partida, as aparências revelam conquistas. Um olhar conta: “quantas casas à frente?”. Um pé ansioso não hesita: “quanto pra chegar no céu?”.
Não conheço criança preparada pra perder. Nasceu já ganhando o mundo no berro. No jogo, pode olhar, é o mesmo. Perder, desde cedo, passa a ser uma baita lição. E de brincadeira em brincadeira, constitui-se um cidadão. Um dia – na verdade, em muitos – a gente perde. No outro – é bem verdade, em poucos – a gente ganha. Viver empatado, pra felicidade geral da nação, é raro, quase que nem bicho em extinção.
Quer ver jogo bom, assim pra tudo quanto é gente? É jogo inventado ou feito à mão. Jogo que vence o tempo e continua por aí. A bola que bate um bolão, a amarelinha que não perdeu sua cor, os jogos de tabuleiro, que até ganharam novos temas e embalagens, mas seguem sob o reinado dos pinos e do dado. A ciranda cresceu e as cantigas mudaram, mas ainda se vê crianças em roda. E pique-pega? Batatinha frita um, dois, três? Um punhado de gente e a brincadeira tá ali, pra pronta entrega. Aliás, um punhado de gente é o melhor dos brinquedos.
Vamos brincar de esconde-esconde? Contar até 10 – não vale olhar, hein? Tem quem olhe... Tem que sair pra todo lado pra se esconder, bem escondido. Tem quem queira aparecer... Mal esconde o riso. Foi achado, não vale denunciar o amigo. Tem quem aponte e o silêncio do gesto revela o escondido. Só não vê quem é cabra-cega, esconde-esconde revela-revela.
E assim, vestido de tempo, não ganha só quem chega primeiro. Quem um dia brincou conhece bem o segredo. 

 
Ilustração: Edmar Facó 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Os aros de Carlos



Dois aros permitem ir mais longe. O menino circulava muito, passeava por tudo, absorvia a todos. Bastava estar com seus aros. Estacionado ou a caminho, seus pensamentos pedalavam no ritmo da rua, nos ares da casa.
Se estavam bem, Carlos seguia tranquilo, sem segurar no guidom. Se o ruído entrava, mergulhava de aros e tudo.  Dá-lhe a pedalar pra dentro. Caminho comprido esse. Às vezes, se perdia. Às vezes, se encontrava.
Um dia tiraram as rodinhas de Carlos, pensaram que já era carro: pronto pra correr, se aventurar, abrir trilha em mata fechada. Mas ele era um menino. Só um menino.  E pediu apoio. O vento fez cócegas, o chão foi menos áspero, o horizonte abriu-se generoso e ele seguiu. De aros.
Em dia de curva, na hora de subir ladeira ou acionar o freio pra não bater, lá estava ele, firme com seus aros. Carlos fez-se buzina pra acontecer. E um par de olhos acompanhado de aros vê mais longe, alcança por dentro o dentro das coisas.
Quem olha pra Carlos vê um par de aros. Eu suspeito que sejam flores.

Foto: arquivo pessoal

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Adormecida



Era de um verde que acolhia. Uma vez na cidade que dormia. As casas plantadas. Brotavam da mata, em zigue-zague, cortando as colinas.

Quando o menino passou por ela, na cesta de um balão, viu tudo inclinado. Coçou os olhos, uma, duas vezes. Era uma cidade ou pontos perdidos no chão? Ouvia só a voz do vento. A vista contou casas, uma igreja, uma ponte e um casarão. E o movimento?

O seu passeio saiu de Juiz de Dentro em direção à Mata. Esperava ver o verde, as colinas e seus moradores-bichos. Queria encostar no teto do mundo, balançar, ver o fogo encher de cores o céu e ser ele o comandante da viagem. Numa aventura prevista, com o moço dono do balão e a mãe, ele deu de cara com a cidade.

- Moço, moço, olha lá!!

- Lá onde, menino?

- Lá embaixo! Olha só! Mãe, você está vendo?

- Vendo o quê, meu filho?

E dá a coçar os olhos e a suspeitar de si mesmo. Ele apontava aflito.

- Mãe, a igreja é linda! Tem até duas torres, dois sinos. E aquele casarão, moço, cheio de vãos, sem portas, um convite pra entrar! Pára, pára o balão! Eu quero saltar!

- Lucas, é impossível! Com o tanto de morro que tem aqui, se a gente desce, não sobe nunca mais.

Nesse instante, ele cogitou morar ali mesmo, nas casas brancas de telhas vermelhas. Podia ser naquela pequenina, antes da ponte.

- Mãe, você não disse que seria uma aventura? Pois então. A aventura está lá.

- Filho, não há nada lá.

- Há sim!! Não vejo ninguém, mas sinto cheiro de gente! Não ouço nada, mas sinto o som do mundo!

Foi falar isso e Lucas viu um menino atravessando a ponte. Um único menino, pé descalço e calça curta. Depois, outro, saia da casa vizinha, e mais uns tantos vindo de todas as partes. Corriam em direção à Igreja e ele previa o sino.

Lucas sorria. A mãe olhava de canto de olho pro moço do balão, que estava preocupado em manter tudo em ordem. Balão no céu, voando em segurança, no ritmo certo. E olhava pra Lucas. Feliz.

- Filho, eu vi!! É mesmo, que igreja linda! Será que tem missa hoje?

- Eu não disse! Olha quanta criança correndo, mãe! Deve ser festa junina ou quermesse, sei lá. A alegria é tanta, que não pode ser só pra ouvir o padre falar.

- De repente, é pra ver alguém dessa cidade, cravada nas colinas. Quem mora aqui tem muita sorte!

- Mãe, não parece uma cidade adormecida? Se a gente descer, pode acordar ela pro moço do balão.

- Filho, cada um vê o que pode, enxerga o que quer. E dor, às vezes, é melhor deixar dormindo.

E os dois viram um homem acenando pra eles. Do lado de lá.

O balão fez sombra ao passar e seguiu viagem.


Ilustração: Nelson Cruz, livro "Dirceu e Marília"
Catálogo da Cosac Naify
Coleção Histórias para contar História