terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ponto e Cruz

 
 
Um rosto rendado. Feito em ponto e cruz. Uma linha puxa outra. Dá pra ver bordado simples e complicado. Entre um e outro, pausas.
 
Pensamento no próximo ponto. Ou seria no anterior? A renda aguarda o surgimento de nova linha e guarda memória das alinhavadas.
 
Melhor deixar a mão correr, decidir o traçado. O novo parte do velho e borda, borda, borda.
 
Traçado branco, encarde. A renda envelhece. Muda de cor. Às vezes, ganha novas linhas. A renda se renova.
 
Bordado feito ou a espera das agulhas. É tudo arte.
 
 
 
Foto: Bruges, Bélgica, Julho/2010.
Arquivo Pessoal.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

À sombra da palmeira


 

A palmeira espana o céu. Do alto de sua majestade desenha nuvens. Alcanço apenas a sua possibilidade. E a reverencio.

Suas folhas arrastam a tempestade, jogam a chuva pra lá. Ver palmeira é ganhar céu azul. Varrer cinzas. Limpar o horizonte. Deixá-lo pontilhado de branco pra sonhar formas.

Acompanhar uma palmeira no seu exercício de descortinar o céu é enxergar todas as cores do branco.

Tão alta. Só toco o caule, arranho a superfície.

Na sombra do escritor, a vi florescer. Em mim. Depois, brotou curiosidade.

Palmeira floresce?

Floresce linda, exuberante, uma vez na vida. Pode levar de cinco a oito décadas. Depois da flor, de suspender olhares e ir além dela mesma, começa a morrer. Lentamente. Aos montes, espalha sementes. Dá adeus e cai por terra.

Do ar celestial ao andar do homem. Se gente vira estrela, palmeira vira grão. Do toque no céu ao esconderijo do solo. Num sobe e desce vagaroso.

Quem um dia a plantou aqui, nessas terras tropicais, sabia que não conheceria a flor. Floresceu antes. Quando isso aconteceu, desconfio que houve o encontro das pontas. A planta esticou num branco encardido e a estrela a tocou com a ponta brilhante.

Teve alguém que viu e fotografou. Deve ter olhado pro lado, pro filho, e uniu as pontas.

 

Para Luiz Raul Machado e seu Cristal, um dos brancos mais lindos.



Fotos:
Capa do livro "As 17 cores do branco", de Luiz Raul Machado,
Editora Galera Record, 2012. Ilustração Ana Freitas.
Matéria Veja.com, 09/12/2009, "Explosão de beleza". Foto Selmy Yassuda


sexta-feira, 22 de junho de 2012

Meia-volta


 
De longe, ela parecia grande.  Foi numa tarde sem pretensões de ser ensolarada que uma professora aproximou-se dela. Uma aula, depois outra e mais outra. Nem se sabe quantas foram dadas pra que a moça desse meia-volta (ou teria sido uma volta inteira?).
Primeiro voltou à infância vestida de velha. Depois, despiu-se do que era pra encontrar o que tinha sido. Fechou os olhos e viu sua vila. Seus amigos. Seus avós. Seus pais ainda juntos. Seus irmãos ainda pequenos.
O barulho do monte de pés correndo foi aumentando, conforme ela comandava o botão que amplificava as sensações. Podia agora escutar os gritos da criançada debaixo da sua janela jogando vôlei – um barbante esticado de uma ponta à outra, de um bloco ao outro, preso no gancho que segurava a janela quando aberta.
As janelas abriam pra fora, de dentro pra fora. Hoje, a maioria desliza. Eram dois braços, com duas partes cada. A primeira de vidro e veneziana mantinha os segredos e dava fresta à luz. A segunda era uma aba interna, uma madeira sem vista, que deixava a casa às escuras. Quando os braços abriam juntos, escancaravam tudo e ficavam presos ao gancho pra permanecerem firmes, sem bater palmas. Era uma janela em camadas, revelava ao gosto do morador: aos poucos ou de uma vez.
Por um momento, sentiu-se janela.
Bom era abrir aquela janela. Ela morava no primeiro andar, como sua avó. Seu apartamento: de fundos. O da vó: de frente. A amarelinha rolava na calçada em frente ao da vó. Quando batia sede, era um pulo, um pé trapezista no muro, um joelho no parapeito e o resto do corpo já anunciava:
- Vó, tem água?
Isso, quando o prazer não era só pular silenciosa e “Bú!” pra avó. Saudade da janela que contava aos poucos e se entregava inteira.
Éramos tantos e até tarde, que dormir era quase um sacrifício. Desconfio que todos cochichavam pro santo travesseiro:
- Que o sono venha logo e passe rápido. A manhã já chegou!
Cada dia era o mesmo sendo diferente. Era um lugar como qualquer outro: de crianças, janelas e ruas.  
Quem me escuta contar essa história, às vezes pergunta se a moça é criança. Quem a vê de longe jura que cresceu. Eu guardo as minhas dúvidas.
Faz pouco tempo ela se deparou com “O Fazedor de Velhos” e com o Pacífico, outro mestre em envelhecer espíritos. Nesse encontro de tinta, ela descobriu algo curioso:
- Conheço uma “Fazedora de Crianças”. Uma professora que resgata lá de dentro o que jamais deixamos de ser. Crianças que gostam de despertar.
Toda vez que o escuro incomoda, a moça escancara a janela e trata de chamar a menina. Dá meia-volta e sorri.

Foto: arquivo pessoal

sábado, 9 de junho de 2012

O melhor dos brinquedos



Toda brincadeira parece feita pra avançar. Jogue o dado e ande o número de casas. Mire o chinelo, pegue-o sem pisar na linha e, se acertar, jogue de novo. Até o céu. Pule até cansar; tropeçou é a vez de outro. Assim, o jogo avança e recua. Parada obrigatória. Volte 3 casas. Perca a vez. Ganha quem chegar primeiro.
Será?
Numa partida, as aparências revelam conquistas. Um olhar conta: “quantas casas à frente?”. Um pé ansioso não hesita: “quanto pra chegar no céu?”.
Não conheço criança preparada pra perder. Nasceu já ganhando o mundo no berro. No jogo, pode olhar, é o mesmo. Perder, desde cedo, passa a ser uma baita lição. E de brincadeira em brincadeira, constitui-se um cidadão. Um dia – na verdade, em muitos – a gente perde. No outro – é bem verdade, em poucos – a gente ganha. Viver empatado, pra felicidade geral da nação, é raro, quase que nem bicho em extinção.
Quer ver jogo bom, assim pra tudo quanto é gente? É jogo inventado ou feito à mão. Jogo que vence o tempo e continua por aí. A bola que bate um bolão, a amarelinha que não perdeu sua cor, os jogos de tabuleiro, que até ganharam novos temas e embalagens, mas seguem sob o reinado dos pinos e do dado. A ciranda cresceu e as cantigas mudaram, mas ainda se vê crianças em roda. E pique-pega? Batatinha frita um, dois, três? Um punhado de gente e a brincadeira tá ali, pra pronta entrega. Aliás, um punhado de gente é o melhor dos brinquedos.
Vamos brincar de esconde-esconde? Contar até 10 – não vale olhar, hein? Tem quem olhe... Tem que sair pra todo lado pra se esconder, bem escondido. Tem quem queira aparecer... Mal esconde o riso. Foi achado, não vale denunciar o amigo. Tem quem aponte e o silêncio do gesto revela o escondido. Só não vê quem é cabra-cega, esconde-esconde revela-revela.
E assim, vestido de tempo, não ganha só quem chega primeiro. Quem um dia brincou conhece bem o segredo. 

 
Ilustração: Edmar Facó 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Os aros de Carlos



Dois aros permitem ir mais longe. O menino circulava muito, passeava por tudo, absorvia a todos. Bastava estar com seus aros. Estacionado ou a caminho, seus pensamentos pedalavam no ritmo da rua, nos ares da casa.
Se estavam bem, Carlos seguia tranquilo, sem segurar no guidom. Se o ruído entrava, mergulhava de aros e tudo.  Dá-lhe a pedalar pra dentro. Caminho comprido esse. Às vezes, se perdia. Às vezes, se encontrava.
Um dia tiraram as rodinhas de Carlos, pensaram que já era carro: pronto pra correr, se aventurar, abrir trilha em mata fechada. Mas ele era um menino. Só um menino.  E pediu apoio. O vento fez cócegas, o chão foi menos áspero, o horizonte abriu-se generoso e ele seguiu. De aros.
Em dia de curva, na hora de subir ladeira ou acionar o freio pra não bater, lá estava ele, firme com seus aros. Carlos fez-se buzina pra acontecer. E um par de olhos acompanhado de aros vê mais longe, alcança por dentro o dentro das coisas.
Quem olha pra Carlos vê um par de aros. Eu suspeito que sejam flores.

Foto: arquivo pessoal

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Adormecida



Era de um verde que acolhia. Uma vez na cidade que dormia. As casas plantadas. Brotavam da mata, em zigue-zague, cortando as colinas.

Quando o menino passou por ela, na cesta de um balão, viu tudo inclinado. Coçou os olhos, uma, duas vezes. Era uma cidade ou pontos perdidos no chão? Ouvia só a voz do vento. A vista contou casas, uma igreja, uma ponte e um casarão. E o movimento?

O seu passeio saiu de Juiz de Dentro em direção à Mata. Esperava ver o verde, as colinas e seus moradores-bichos. Queria encostar no teto do mundo, balançar, ver o fogo encher de cores o céu e ser ele o comandante da viagem. Numa aventura prevista, com o moço dono do balão e a mãe, ele deu de cara com a cidade.

- Moço, moço, olha lá!!

- Lá onde, menino?

- Lá embaixo! Olha só! Mãe, você está vendo?

- Vendo o quê, meu filho?

E dá a coçar os olhos e a suspeitar de si mesmo. Ele apontava aflito.

- Mãe, a igreja é linda! Tem até duas torres, dois sinos. E aquele casarão, moço, cheio de vãos, sem portas, um convite pra entrar! Pára, pára o balão! Eu quero saltar!

- Lucas, é impossível! Com o tanto de morro que tem aqui, se a gente desce, não sobe nunca mais.

Nesse instante, ele cogitou morar ali mesmo, nas casas brancas de telhas vermelhas. Podia ser naquela pequenina, antes da ponte.

- Mãe, você não disse que seria uma aventura? Pois então. A aventura está lá.

- Filho, não há nada lá.

- Há sim!! Não vejo ninguém, mas sinto cheiro de gente! Não ouço nada, mas sinto o som do mundo!

Foi falar isso e Lucas viu um menino atravessando a ponte. Um único menino, pé descalço e calça curta. Depois, outro, saia da casa vizinha, e mais uns tantos vindo de todas as partes. Corriam em direção à Igreja e ele previa o sino.

Lucas sorria. A mãe olhava de canto de olho pro moço do balão, que estava preocupado em manter tudo em ordem. Balão no céu, voando em segurança, no ritmo certo. E olhava pra Lucas. Feliz.

- Filho, eu vi!! É mesmo, que igreja linda! Será que tem missa hoje?

- Eu não disse! Olha quanta criança correndo, mãe! Deve ser festa junina ou quermesse, sei lá. A alegria é tanta, que não pode ser só pra ouvir o padre falar.

- De repente, é pra ver alguém dessa cidade, cravada nas colinas. Quem mora aqui tem muita sorte!

- Mãe, não parece uma cidade adormecida? Se a gente descer, pode acordar ela pro moço do balão.

- Filho, cada um vê o que pode, enxerga o que quer. E dor, às vezes, é melhor deixar dormindo.

E os dois viram um homem acenando pra eles. Do lado de lá.

O balão fez sombra ao passar e seguiu viagem.


Ilustração: Nelson Cruz, livro "Dirceu e Marília"
Catálogo da Cosac Naify
Coleção Histórias para contar História


quarta-feira, 14 de março de 2012

A cama de baixo



Dormir em casa de vó é deitar em sonho. Visitar o passado, vestido de paninhos bordados, móveis escuros e carregados de sons. Cada peça da casa levanta uma poeira de história. Cada canto revela uma quina de carinho. Cada lembrança acorda uma saudade.

A cama encostada na parede, logo abaixo da janela, deixava espaço para que a minha fosse puxada. A infância era, assim, esticada. Do alto, com seu terço e sua camisola grande, feito dão duas, ela olhava pra mim e me convidava. Primeiro, o “Anjo da Guarda”, depois o “Pai Nosso” e, por último, a “Ave Maria”. Protegida por todos os santos e orgulhosa por saber de cor, adormecia. Suspeito que dormia sorrindo.

A casa era do silêncio. Ouvia-se a geladeira acordando a noite. O relógio badalando na madrugada. Um estalar ou outro em algum canto. Às vezes, acordava. Onde estou?! Bastava olhar pra cima. Pra ela. Sua presença era minha maior oração.

Na casa dela tudo levantava cedo. O cheiro do café. A louça na mesa. As portas e as janelas.

Na casa dela eu não tinha sono. Levantava com beijos e mesa posta.

Saíamos juntas de um jeito que quase não se vê mais. De braços dados. Avó e neta. Era bater a porta e minha mão pequenina procurava o seu braço, já cruzado pra me receber. O caminho era curto até a igreja de tijolinhos. Na hora dos cânticos, sua voz ecoava e eu fazia o maior esforço pra cantar bonito como ela. Ela me olhava e sorria.

Na volta, ela vinha com as músicas. Era um larali, laralá pelas ruas, que íamos nós de braços dados com as melodias. Parávamos na Cobal pra comprar o peixe do almoço e mais larali, laralá pro Seu João. Depois, na barraca de frutas, outros laralis, laralás pra Dona Rosa. E, de refrão em refrão, ela alimentava meu coração.

O domingo não passava, o domingo estacionava.

Ainda hoje vejo a cama de baixo da casa da minha avó e olho pra cima. Pra ela.