quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Entre linhas



Ser da escuta
Dá morada
À palavra
Ao outro

Entre linhas
Respirações
Pensamentos
Revela-se

Pontua
Corta
Mostra
Questiona

Abre caminho
Pra dúvida
Companheira
Da escrita


À mestre, Ninfa Parreiras, com carinho pelo dia de hoje!

Imagem: do livro "Um teto de céu", de Ninfa Parreiras,
ilustrado por André Neves. Editora DCL.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011



Há quem veja
No coração
A oração

Há quem sinta
O rosto corar
Ao orar

Há quem atravesse
Uma palavra
Sem olhar

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Passarinho



Criei grades como quem
Cria passarinho

Cada haste faz seguro
O meu ninho

Voar entre conhecidas paisagens
Cercada de alpiste de coragem

Minha gaiola é meu canto
Abrigo quente, feito manto

Pouso leve, voluntário
Quando voo, vou em bando

Nasci pra cantar em parceria
Permanecer em harmonia

Bato asas com os pés no chão
Meu voo é feito de coração

Nas grades que criei
Sou pássaro livre
Livre, como só eu sei

O lápis



Risca e rabisca. Conta, reconta, inventa. Diz o que vai pela ponta do pensamento. Às vezes, treme, segue a gente. Gosta de preencher vazio. Inclinado a dar opinião.

Vive muito quando é apenas decoração. Se usado, aponta os caminhos e some rápido. Quando é de estimação, vira cotoco e some na mão.

Apagar não é com ele. Há quem grude com este fim, mas ele sempre diz:

- Eu sou o começo, o meio e a inspiração. Não apago nada não!

O papel onde deita a sua fantasia pode ser liso, com pauta, sem nada. Ser solto na vida ou vir acompanhado. Melhor se for branco pra deixá-lo correr pra todo lado.

Andaram dizendo que a vida dele está por um triz. As letras soltas já não dão mais a mão. Das teclas de onde agora as palavras nascem é cada dedo por si e nenhum pelo outro. Comandados, batem forte, tal qual marcha-soldado:

1, 2 vão por ali
3, 4 pra todo lado
5, 6 um de cada vez
7, 8 escrevam dezoito
9 e 10 acabaram-se os papéis.

O apontador sai de cena de fininho, os dedos já não se abraçam. É raro vê-los dançando juntos, coladinhos.

Ele? Resistente, teima em se fazer presente. Feito de madeira, grafite e coração, um bom lápis pulsa, preenchendo a imensidão.

A maleta do meu pai



Uma maleta engraçada. Em seu conteúdo muito menos que nada.
O dedo curioso abria a maleta do pai. A vista só alcançava papel branco e tinta preta.
- Que coisa mais sem graça... – a menina declarava.
Quando o pai chegava era a maleta que primeiro entrava. Preta, fechos de ouro, reluzia como o sapato de couro.
Na casa moravam a menina, a mãe, o pai e a maleta.
- Meus pais têm duas filhas – às vezes, ela dizia.
Cada uma tinha um quarto. Uma cama.
A maleta dormia com os livros. Ela com as bonecas. A maleta só trabalhava. Ela ia a escola e brincava.
O pai passava horas no quarto da maleta. Aberta, ela despejava tanto papel de tinta preta, que a menina achava que, um dia, seu pai se afogaria num mundo sem cor.
- Já sei!
A menina correu para o quarto e lá ficou. Usou tintas, lápis, retalhos e criou... o seu maleto! Verde por fora, colorido por dentro. Com alça macia e um mundo de coisas: álbum de figurinhas, sol vermelho e preto, montanha de neve colorida, mar pra todo lado, anzol e muita, muita linha. No canto, dentro do seu maleto, ela acomodou o estojo novo, os dois livros preferidos e um tanto de folhas branquinhas, lisinhas, para o pouso das mãos, enquanto a vista passearia.
No outro dia, ao lado da maleta estava o seu maleto. Carregava um bilhete:
Fiz mais um filho pra você! O Seu Maleto é todinho seu! Beijos, Bebel
Obs.: se quiser, eu divido meu quarto com ele!


Foto: capa do livro "a maleta do meu pai",
de Orhan Pamuk  - Ed. Companhia das Letras

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Borboleta Branca



Entre ruínas, plena
Feito tijolo, forte
Sem tinta. Sem corte.

Na maré dos olhos
Pousa a borboleta branca
Passeia pela emoção

Ali, diante dela
Não era o amargo do vermelho
Era o doce do branco

Folha vazia
Nas asas da borboleta
Deita a fantasia

O tempo ancorado

Em festa, o antes voa
Em rito, o agora fala
Em espera, o depois lá fora

Encontro marcado
Por presentes
Presenças de presente

Na alma da borboleta
No verso do poeta
Na graça de uma gente

A borboleta some
A homenagem termina
A menina caminha

Acomoda na mão
Uma bagagem nova
Vidro cheio de gratidão



Ilustração: capa do livro "Vermelho Amargo"

Ao homenageado da FLIST 2011, Bartolomeu Campos de Queirós,
e a todos os presentes - inclusive a Borboleta Branca! - que lotaram, no dia 14/05, o Parque das Ruínas de emoção. 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A árvore



Mergulhar na história, sair dela encharcada. A menina deu este pulo ao ler “A árvore”, um livro que chegou de repente, sem avisar e revelou um pedaço dela. Do chão árido do nordeste, da falta de tudo que cerca uma gente, ela encontrou uma senhora. A sua senhora.

Como em uma viagem, ela viu a origem da força e da generosidade que sempre a cercou. Viu as suas raízes.

Junto com os meninos Tidinho e Zé de Bruno sentiu-se guardiã da árvore que durante tanto tempo foi sua cabana. A menina era broto da árvore frondosa, de tronco grosso, reto e seguro.

A cada linha, uma gratidão sem medida invadia a menina. O texto misturado à vida. A vida se encontrando no texto. À sombra protetora das palavras, ela teve um encontro com a avó. E na sala de espera da saudade, a menina fez do livro sua morada.

E escreveu pequenininho, no canto do papel:

Somos todos frutos de uma árvore.

Toda criança é um broto que alimenta de esperança a humanidade.

 
Ilustração: Marina D'Aiuto

Para a árvore que trago junto ao peito e que ainda faz sombra...

À autora Yacy Saboya pelo encontro mágico e único...
À ilustradora Marina D'Aiuto pela força de suas ilustrações.