“O pensamento atravessa as cascas e alcança o miolo das coisas.
Os olhos só acariciam as superfícies.
Quem toca bem dentro de nós é a imaginação”
Bartolomeu Campos de Queirós
Era uma vez uma professora que tinha uma chuva de idéias e dizia carregar uma mala de broncas – ainda que a turma não visse a tal mala.
Ela também tinha uma mania contagiosa. Sempre repetia para os seus alunos:
- Quando alguém fala, a gente faz o quê? Volta o pensamento, o coração, o corpo todo para escutar.
Para a professora, o corpo falava, escutava e via. Ela enxergava o miolo das coisas, além do que as cascas são capazes de revelar.
Pelas alamedas da escola, o que se ouvia era claro:
- A turma dela não pára quieta!
- Que turma espoleta!
Alguns até diziam que eles estavam atrasados.
Nem todos possuíam os super poderes da professora. Ela sabia ver o escuro. Olhava mais fundo, abaixo da superfície. Gostava de mergulhar.
Ela conseguia ver o que, às vezes, se tem dificuldade de enxergar: sua turma era feita de... CRIANÇAS.
Meninos e meninas que gostavam de brincar. Acima da média nesta matéria.
O Sr. Atraso era ultrapassado pela Curiosidade Sem Fim, pelo Improviso de Última Hora e pela Dona Criatividade, que não largava aquela garotada.
A professora, a cada dia, se reinventava para tornar divertidos os conteúdos que queria passar.
Brincando, ela ensinou a turma a ler e a escrever.
Brincando, ela convidou pais e avós para as atividades de sala de aula.
Brincando, ela transmitiu valores para a sua turminha. Ensinou-os a conviver – a viver com outros. Tarefa de casa para os pais também.
Ao permitir que o Prazer entrasse na sala de aula, sem perceber, ela deu uma lição que marcará a história destes meninos e meninas. Quando crescerem continuará morando dentro deles a criança que um dia foram. E uma vida com uma criança dentro de si é ou não é mais alegre? Mais bonita?
Para a Prof. Marcília Nascimento das Neves e
para todos os professores que alcançam o "miolo das coisas"!
Ilustração: Silvana Estrela
Um detalhe:
Existe uma expressão quando se é adulto e se procura extrair idéias de um grupo que é: “vamos pensar fora da caixa”. Às vezes, passamos a vida moldando nossos filhos a pensar dentro da caixa, para depois eles passarem a outra parte tentando sair dela. Preservar a infância é deixar que as crianças sejam crianças, pensem fora da caixa. Uma semente será plantada para que, quando adultos, continue morando neles a criança que um dia foram.