segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A chave



A menina caminhava olhando para o chão. Só via seus pés. Esquecida da direção. Por uma estrada que leva, mas não conduz, ela andava sozinha. Ia com o vento, com a maré, pelas mãos.
Até que um dia, sopraram para ela um novo caminho. Ela seguiu. Andou entre as letras, pela infância, fez novos amigos. Ora com os pés no chão, ora com a cabeça nas nuvens. Passou por uma, duas turmas do novo caminho. O tempo voou. Quando o caminho é bom, a estrada parece curta e chegar ao final nem sempre é sinal de vitória.
Ela sentia saudades daquela estrada. Gostava de andar com quem, um dia, cruzou o seu caminho. Foi como dar uma topada numa pedra. De repente, descobriu: havia sido aberta naquela estrada, tal qual um armário fechado. Com uma chave abriram seu coração, suas memórias, seu talento. Ela foi encontrada lá dentro, meio perdida, num caminho sem direção.
O novo caminho parecia chegar ao final. Mas a menina era teimosa, achava que voltar era, de alguma forma, ir pra frente. Como se o mesmo caminho pudesse sempre ser um novo caminho. Poderia recomeçar? Poderia ser eterna repetente? Enquanto o caminho ressoasse dentro dela, lembrando-a de quem ela era, do que gostava de fazer, seria por esta estrada que continuaria a caminhar. Afinal, quem disse que todo caminho tem que dar em algum lugar? A menina só queria andar.


À minha irmã e amiga, Patrícia Lavatori Corrêa, que "soprou" o novo caminho.
À chave que me “abriu”, Prof. Ninfa Parreiras. Até o próximo ano!

O auto-retrato



Álamo chegou em casa com uma idéia fixa: o auto-retrato. Só pensava nisso. O desafio foi anunciado na aula de artes. Cada um deveria fazer o seu auto-retrato. O alvoroço dos amigos, o barulho das aulas, o sinal do recreio, as conversas do dia... Tudo sumiu. Espaço mesmo só para a voz da professora Lúcia, que teimava em repetir na cabeça do menino: “Faça o seu retrato baseado na imagem que você tem de você mesmo”.

- Um retrato meu, feito por mim.

Não era a falta de jeito que invadia Álamo. Ele adorava desenhar, pintar, criar. Retratava o que via com certa facilidade. O grande dilema era ser ele a sua obra de arte!

- Um retrato meu: terá cabelos ao vento? Olhos castanhos? Pele morena e olhar transparente? Deverá ser colorido ou em preto e branco? Talvez, metade cor, metade sombra, como sou. Mas será este o meu retrato? Estarei ali, num único rosto? No fundo, na raiz de tudo, não sou o retrato do meu mundo.

Sem mais pensar, Álamo começou a brotar. Usou cola, tesoura, papéis de várias cores. Sobre a folha branca fez alta, forte, com raízes e muitos ramos, uma árvore. E no canto do papel, bem pequeno, escreveu: “Sou fruto e flor de onde vim. Um rosto é muito pouco pra mim”.


 À família Facó, pela força da nossa árvore!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Aplauso



O último espetáculo. Serena, tranquila, ela fez sua última apresentação. Diante da família, de queridos amigos, ela terminou a cena sob aplausos e ao som de “What a wonderful world”, de Louis Armstrong. O canto suave e emocionante foi ponte entre a platéia e a artista. Entre este e o outro mundo. Ambos, aos olhos de quem vê, maravilhosos.

De pé, os presentes rezavam: “Ave Maria, cheia de graça!”
De pé, os presentes gritavam: “Bravo! Bravo! Bravo!”

Entre flores e cantos,
falas e fotos,
risos e choros,
ela fez sua passagem.

As cortinas baixaram. O fogo se apagou. As almas foram tocadas.
Seu espetáculo foi, em todos os atos, uma verdadeira celebração à vida.
Da efêmera à eterna.

Aplausos para Marpe! Mar de Maria, Pe de Penha.
Artista da vida!



Para Marpe Facó Soares Drummond, com amor.
Por sua alegria. Por sua energia vital.
Por sua coragem em enfrentar os reveses da vida.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A renda


Era branca. Uma trama delicada, num lenço pequeno. Tinha cheiro de história. Veio na mala de uma menina do nordeste, que, pela primeira vez, saia de sua cidade para acompanhar o marido. De Fortaleza para o Rio de Janeiro, da casa dos pais para sua própria casa. De um pulo para outro, já era mãe de 4 filhos e avó de 7 netos. E a renda não se rendia ao tempo. Intacta, esperava na mala.

A menina fez sua historia e também aprendeu com ela. De dona de casa à catequista da Igreja do bairro, viu seus filhos e netos seguirem seu exemplo. Uns mais. Outros menos. Mas todos com Jesus no coração. Imagina a alegria desta menina ver sua primeira neta fazer primeira comunhão? Imagina ser ela a voz que anunciaria seu nome no altar da Igreja e ser ela a entregar a Certidão?

Numa cena como essa, a renda tinha que estar lá. Não podia esperar mais nenhum dia, nenhum outro acontecimento. Ia entrar para família pela porta da igreja, carregada no peito da neta. Branca, delicada, estava na hora da sua primeira comunhão.

O vestido das meninas tinha que ser branco. Simples. Sem ostentação. Meia e sapatos brancos. No máximo uma grinalda de pequenas flores brancas sobre os cabelos. Naquele dia, o mais importante entrava pela boca, prendia no céu e ia parar no pensamento e no coração. Para receber o corpo de Cristo, o lenço foi parar no peito da menina. Dobrado ao meio, em formato de triângulo, foi alinhavado no vestido pela avó. Nesta posição, a renda aparecia e via tudo de frente. E assim, de branco e renda no peito, a menina entrou na igreja. Carregava o que nem suspeitava. Levava o que nem sabia.



À dona da renda, Maria da Penha Facó Soares

sábado, 11 de setembro de 2010

O mosquito e a tosse



Zzzz… Zzzz… Zzzz…
Cof, Cof. ... Cof, Cof.
A sinfonia não parava.
Zzzz… Zzzz… Zzzz…
Cof, Cof. ... Cof, Cof.

À noite os dois sons se reuniam em perfeita harmonia e a menina, em claro, não dormia.

Zzzz... Zzzz... Zzzz... Concentrada no mosquito, seguia o seu vôo. De zumbido em zumbido, sentia o baile do atrevido. Cobria-se toda. Não sobrava um pedacinho seu pro danado do mosquito, mas ela sabia que sua vigilância tinha hora. O sono ia chegar e ela não teria como escapar. Ele ia invadir seu esconderijo ou ela mesma abriria caminho se descobrindo.

Um olho pregou e o outro quase acompanhou. De repente, um novo som entrou.

Cof, Cof. ... Cof, Cof. Era tosse da mãe.
Vai ver era o aviso de quem ama.
Vinham os mosquitos: Zzzz... Zzzz... Zzzz...
Contra-atacava a mãe em defesa da filha: Cof, Cof. ... Cof, Cof.

Uma batalha. Noite adentro.

Tris-tras. Tris-Tras. Tris-tras.
Os passos arrastados do pai rumo à cozinha.
Fiuuummm-fiummm! O fogo fazia borbulhar a água do chá.

Tris-tras. Tris-tras. Tris-tras.
Os passos de volta à cama. Ao encontro da mãe. A menina podia sentir o pai, meio lá, meio cá, acariciar os cabelos da mãe e desejar pro chá, milagroso, adormecer a garganta da mulher. Soldado atento ao inimigo, meu pai não dormia em perigo.

Tris-tras. Tris-tras. Tris-tras.
Com a caneca vazia na mão, o pai ia ver a única filha. Cobertas no corpo, ok. Temperatura, ok. Carinho de última hora, ok.

A menina sorria sem ele ver. De olhos fechados, meio lá, meio cá, ela se despedia em silêncio do pai. Ela e a tosse.
Os mosquitos: Zzzz...Zzzz...Zzzz...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

À Procura



A menina estava preocupada. Procurava e não achava. Aonde havia deixado? No quarto, não estava. Debaixo da cama, nada. Na estante, entre os livros, quem sabe? Também nada. No banho, será que a encontrava? Pelos cheiros da cozinha terá sido atraída? Em todos os cantos da casa, era só o que via: nada.

Saiu à rua. Ela gostava do mar. Da areia da praia. Na certa, estava perdida por lá. A menina olhou. Sua vista alcançou o horizonte e todos os seus sentidos juntos, em alerta. Vendo o mar; ouvindo o bater das ondas; o vento no rosto; o cheiro de maresia; o gosto da água de coco. Cadê? Onde você foi parar?

Fugiu. Terá ido pra uma terra distante, desconhecida? Se perdeu na multidão? Encontrou alguém que lhe desse o devido valor?

- Se encheu de mim!? - berrou a menina.

Que aflição!

Mesmo sem querer, mesmo sem perceber, vai ver a menina havia feito algo de errado. Por que ela iria desaparecer?

Foi a sua preguiça? Sua dificuldade de dizer o que sentia ou o que queria? Devia ter se esforçado. Dito:

- Não é todo dia que a disposição me desperta. Não é todo dia que uma luz se acende. Às vezes, fico apagada.

Mas isso teria adiantado?

Agora, sem ela, seria ainda mais difícil acordar. O que fazer?

Talvez, esteja aqui. Escondida na folha branca. No lápis preto.

Não foi no primeiro, acho que no segundo ou terceiro traço, a menina despertou:

- Ah! Te peguei! – e, da euforia ao sussurro, pediu, clemente:

- Fique aqui, assim, comigo. Sempre.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Rio Belo




Um Rio independente. Um Belo presente.
Um Rio de alma. Um Belo de calma.
Um Rio artesão. Um Belo poeta.

Um Rio e seus espaços. Um Belo e seus casos.

Um Rio atravessa. Um Belo desperta.
Um Rio de amor. Um Belo de dor.
Um Rio inventor. Um Belo professor.

Um Rio por Santa. Um Belo pela Santíssima Trindade.

Um Rio teimoso. Um Belo composto.
Um Rio de correnteza. Um Belo de leveza.
Um Rio de Janeiro. Um Belo Horizonte.

Um Rio Belo pela palavra. Um Belo Rio que passa.


Ao Belo Rio que passou por mim no 12º Salão da FNLIJ, obrigada! 
Um Rio chamado Lygia Bojunga e um Belo Bartolomeu Campos de Queirós.